Fonte: Primeiro Round
Nenhum jab, gancho ou direto foi aplicado na quase subterrânea escola de Boxe do Londrina Esporte Clube nesta quarta-feira (30/09) que se passou. Os sacos de pancada e os aparadores permaneceram pendurados, mas sem movimentos. Nenhum aluno foi visto pulando cordas na empoeirada sala localizada no Estádio Vitorino Gonçalves Dias. Diante do clima de tristeza, tudo indicava que era algo relacionado com a saúde do idealizador do esporte no norte do Paraná: morreu Miguel de Oliveira, 66 anos.
Apesar de há 72 dias estar internado na UTI, lutando contra problemas renais crônicos e também pulmonares, foi na academia dirigida desde 1980 pelo chamado Rei do Boxe Londrinense que apareceram alunos, amigos e admiradores em busca de notícias. Acreditavam que dava.
Afinal, o “Mestre” sempre resistia a tudo dentro e fora dos ringues. Seja como diretor técnico da Federação Paranaense de Pugilismo, treinador ou até mesmo assistente social....a falta de apoio e os problemas nunca foram páreo para ele. Infelizmente dessa vez não deu para Miguel, que nada pôde fazer diante de uma parada cardíaca no Hospital do Coração - um fato que só não é classificado como nocaute pois Oliveira foi daqueles que nunca se deixou nocautear. Com certeza, esses mais de dois meses de luta provaram que ele foi linha de frente até o fim.
Miguel de Oliveira sempre foi um combatente apaixonado pela modalidade que começou a praticar no final dos anos 50, aos 16 de idade. Competia de forma amadora no Rio de Janeiro e de lá saiu na década seguinte para fazer um passeio em Londrina. Ficou até os últimos dias de sua vida.
No início, precisava viajar para assistir e lutar boxe em São Paulo. Mas Miguel estava decidido a ficar em Londrina e no ano de 1975 aceitou o convite do sargento Mauricio Augustinho Pereira para dar aulas e implantar o pugilismo na cidade.
Sua missão foi cumprida ao revelar nomes que vão de Genésio Trindade, Campeão brasileiro e sulamericano nos anos 80, até Edilson Pereira, que há poucos anos levantava o título de campeão nacional amador, pouco antes de se profissionalizar.
Muitos foram os trabalhos sociais do professor que jamais deixou um aluno, mesmo os diversos em situação de risco, sem treinar por falta de dinheiro - seja para compra de luvas, seja para a mensalidade. Mais de 500 alunos já aprenderam as técnicas com Oliveira, que em julho precisou deixar sua academia com cerca 200 atletas aos cuidados do pupilo Edilson Pereira.
O gongo final soa às 10 horas desta quinta-feira, quando o corpo será enterrado em Londrina.